Monólogo do médio oriente: todo o elenco num anjo

Anjo. Texto:Henry Naylor. Tradução:José Paulo Tavares. Encenação: Ángel FraguaInterpretação:Teresa Arcanjo. Assistente de Encenação:Mara Correia. Desenho de iluminação:Pedro Pires Cabral. Figurino:Cláudia Ribeiro. Trechos Musicais:Isabel Maria Silva. Fotografia:Lino Silva. Design gráfico:Paulo Araújo.Registo de vídeo:Closer – André Macedo. Comunicação:Inquieta –Produção e Comunicação Cultura. Co-produção:Ángel Fragua e Teatro de Vila Real.

Ao Teatro Festival!, Cine-Teatro de Alcobaça João D’Oliva Monteiro, 22 de Março de 2019

 

     Numa altura em que chegam notícias do fim do autoproclamado Estado Islâmico, o actor e encenador Ángel Fragua traz à cena portuguesa Anjo, um texto do premiado autor Henry Naylor, que trata da história de uma heroína da cidade de Kobane, que morre lutando contra o Daesh.

    A peça (estreada em 2016 no Festival de Edimburgo) parte da história verídica de Rehana, uma rapariga curdo-síria de 19 anos, com sonhos maiores do que o destino lhe oferece: ela pretende ser advogada, o pai insiste na importância de saber usar uma arma. Rehana é culta e conhecedora de importantes referências ocidentais, o pai tem para com ela a doçura possível que a vivência de rude militante lhe permite ter. Por acidente, Rehana vê a sua vida transformada em missão, e levada pelo sentimento de justiça e pelo amor do seu pai, morre como mártir às mãos do ISIS, que ocupa a sua cidade, no norte da província de Alepo. Como representante da YPJ Unidades Femininas de Protecção, Rehana mata centenas de homens, lembrando a cada disparo as lições de tiro contra as latas de sumo que o seu pai promovia no quintal da sua casa.

    O monólogo, traduzido por José Paulo Tavares e encenado por Ángel Frágua, estreou a 29 de Novembro no Teatro de Vila Real, e tem circulado um pouco por todo o país. Nesta encenação, Rehana é interpretada por Teresa Arcanjo, que, ao longo de pouco mais de uma hora, partilha com o público a história de vida da protagonista.

    Em cena temos apenas a intérprete e um bidon, único objecto cénico que serve à actriz a convocação das várias imagens que vai produzindo. No percurso complexo que leva a estudante de direito a tornar-se a mulher franco-atiradora mais temida pelo Daesh, a actriz é sempre o fantasma de Rehana, contando, desde o primeiro tiro da sua vida, toda a sua história até à sua morte. A actriz é virtuosa e demonstra absoluta segurança no texto, cujo discurso claro é auxiliado pela clareza das ideias que inspiram e dão a ver, como se estivessem presentes, todos os episódios da narrativa.

    Teresa interpreta quase duas dezenas de personagens, todas as intervenientes da história de Rehana, conferindo-lhe corpo, vozes e gestos diferentes. Assim, Arcanjo trava diálogos consigo própria sempre que dá vida aos diálogos entre Rehana e o pai ou a mãe, ou entre as suas colegas de guerra.

    Apesar de a interpretação de Rehana ser muito consistente, e de encontrarmos na performance de Arcanjo a profundidade dos conflitos interiores da heroína, a interpretação das restantes personagens surge como o calcanhar de Aquiles deste espectáculo: a qualidade do trabalho da interpretação da personagem principal contrasta com o modo como a actriz dá a ver os restantes intervenientes, que são retratados de modo quase caricatural, tanto no tom de voz quanto no gesto, utilizando ocasionalmente recursos cliché.

    De resto, a encenação de Frágua é virtuosa pela simplicidade, ritmo e dinâmica de discurso, pelo desenho de luz subtil e belo de Pedro Pires Cabral e pelo incrível figurino de Cláudia Ribeiro, um macacão largo elegante de inspiração oriental, cujo branco total não deixa que o público se esqueça que está perante um anjo, ao mesmo tempo que potencia e sublinha o carácter exótico e distante da história contada.

    Tendo uma encenação que se dilui no talento de Teresa Arcanjo, Anjo é um espectáculo que se recebe como quem está perante um único contador de histórias, que se desmultiplica em muitas outras vidas.Anjotem com o condão de captar o espectador do primeiro ao último instante, e fica-se siderado ao testemunhar a emoção concedida a cada uma das personagens, pelo rigor da interpretação, que num palco totalmente negro nos faz ver paisagens e acontecimentos tão distantes.

    “Porque os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer” (José Saramago, Memorial do Convento). Cabe ao espectador descobrir que tipo de anjo é Rehana, de Anjode Ángel Frágua.

 

(este texto está também publicado em http://www.contracenas.com )

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s