Um bando de gaivotas num caleidoscópio de Ninas [Nina, Nina]

Nina, Nina. Texto:Sofia Santos Silva. Criação e Interpretação:Mariana Magalhães e Sofia Santos Silva. Apoio à criação:Tiago Jácome. Desenho de Luz:Teresa Antunes. Imagem:Hugo Olim. Produção: Colectivo Retorno

                                                                  Rua das Gaivotas 6, Santos, 9 de Fevereiro de 2019

 

    Pensar A Gaivota de Anton Tchékhov é um daqueles desafios a que encenadores e actores um pouco por todo o mundo não resistem. A obra é um dos clássicos da dramaturgia europeia mais frequentemente revisitados, e multiplicam-se ao longo dos tempos, um pouco por todo o mundo, as encenações deste texto. O Colectivo Retorno apresenta ao seu público Nina, Nina, um espectáculo que explora não propriamente a narrativa dramática criada por Tchékhov, mas um discurso cénico sobre uma personagem da intriga, Nina, a jovem actriz que juntamente com Treplev, um pretenso escritor, protagoniza o enredo da peça. O exercício performativo do Colectivo Retorno é complexo, despudorado e assertivo no modo como expõe as várias visões e interpretações que apresenta da personagem.

     Em Nina, Ninaestamos perante um jogo de espelhos que revela as assimetrias que compõem as interpretações, por parte do trabalho de actor, que são possíveis fazer de Nina: sem representarem propriamente o clássico, Sofia Santos Silva e Mariana Magalhães mostram e debatem várias formas de fazer e pensar essa figura feminina de A Gaivota. Assim, por causa da semelhança dos figurinos bem achados que as actrizes envergam (figurinos de show, de festa, de um prateado sóbrio, mas divertido), a par de alguma sintonia nos gestos e palavras proferidas (e do aspecto cenográfico, dividido a meio, que cada uma ocupa), o público vê-se a assistir a duas realidades paralelas que se reflectem uma frente à outra. Em cena experimentam-se averiguações diferentes da personagem clássica: sobre a protagonista tchekhoviana, Sofia Santos Silva acha que esta é sobretudo aborrecida, elegendo Nina Simone como uma Nina muito mais interessante de se representar.  Deste modo, adopta uma personaque cita a cantora, e assim Sofia é Nina sem ser “a” Nina, numa performance divertida que se rege por um registo caricatural. Já Mariana Magalhães é mais emocional, está apaixonada pela personagem russa e defende-a sempre que afirma algum pudor em interpretá-la, pois este é o seu grande desafio. Mariana Magalhães é talvez mais parecida à Nina de Tchékhov do que Sofia Santos Silva: ali ficciona a sua própria insegurança, deslumbramento e ingenuidade, uma espécie de tumulto interior que é o mesmo do de Nina do clássico. Neste jogo, destaca-se a empatia entre as duas actrizes, cuja cumplicidade favorece a proposta de interpretação.

    O texto de Sofia Santos Silva não é eloquente porque é despretensioso. Apesar de cuidado e bem escrito aparenta ser leviano, característica que confere a possibilidade de performances espontâneas que parecem viver do improviso. Não esquecendo que A Gaivotaé também uma peça sobre processos criativos e a pulsão para a escrita dramática, o texto de Nina, Ninaé irónico e afina-se com o sarcasmo das interpretações consistentes e maduras da dupla que revelam não só as preocupações da personagem que é actriz (Nina), mas também das actrizes na sua interpretação dessa personagem. É irresistível caírem no distanciamento de se referirem a si próprias na terceira pessoa, na tentativa de alcançarem a perspectiva necessária à compreensão da resolução dos problemas (sobretudo o medo de representar) do trabalho de actor.

    Tendo uma moldura de encenação algo naïve como calcanhar de Aquiles, Nina, Ninalida com o clássico com um tom satírico que exterioriza a necessidade de criação artística. Sem contar a história de Nina do século XIX, o Colectivo Retorno conta a história de duas actrizes no século XXI, falando das suas angústias sem terem de as verbalizar.

    Porque Sofia Santos Silva, a autora do texto, apresenta Mariana Magalhães e ela própria como personagens da peça Nina, Nina,o jogo de espelhos propaga-se numa folia de interpretações, opiniões, performances e discursos meta-teatrais que discutem métodos de interpretação, de convivência com personagens, com textos, com dramas ficcionais e pessoais, disfarçando o drama pessoal na discussão sobre Nina de Tchékhov como o espectáculo a ver.

 

(este texto está também publicado em http://www.contracenas.com )

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