Ser flamingo ou ave rara quando a tradição ainda é o que era [Credores]

CREDORES. Texto:August Strindberg. Tradução: João Paulo Esteves da Silva.Encenação: Paulo Pinto. Interpretação: Ivo Canelas, Paulo Pinto e Sofia Marques. Cenografia eFigurinos: Ana Limpinho. Desenho deLuz: Daniel Worm.Assistente de Encenação: Nelson Cabral.Produção Executiva: Patrícia Costa. Coprodução: Teatro da Trindade INATEL e C.R.I.M. Produções. Apoios: Fundação GDA, C.M. Lisboa e Polo Cultural Gaivotas.

                                                          Teatro da Trindade, Sala Estúdio, 27 de Setembro 2018

     August Strindberg (1849-1912), tem nas suas obras particular interesse em explorar as dinâmicas psicológicas das relações humanas, perscrutando entre os conflitos sociais, económicos, artísticos e amorosos. EmCredores(1888), peça da primeira fase realista da sua dramaturgia, que depois enveredou por caminhos simbolistas, o dramaturgo propõe para o palco a economia da vida efectiva, experimentando a deflação, os juros e os contratos de crédito que se assinam a cada relação amorosa. A acção da intriga concentra-se em três personagens: Adolfo, um artista plástico refém da sua paixão pela esposa, Tekla, que por sua vez já foi casada com Gustavo, um professor que se torna confidente e conselheiro amoroso de Adolfo sem que este saiba do casamento anterior de ambos.

     Paulo Pinto encena Credores, de Strindberg, na abertura da nova Temporada do Teatro da Trindade, aplicando-se nas seguintes camadas de texto e linhas de carácter: Adolfo (Ivo Canelas) tem um carácter débil e inseguro, e sofre profundamente. Nele vemos concretizado os clichés do ciúme, da devoção e da paixão platónica. O seu amor está reservado a uma prática fraternal do casamento, ao mesmo tempo que conflitua com essa dinâmica da relação, mais germanal e amistosa que carnal. É a Gustavo (Paulo Pinto) que declara as suas angústias, a ele entrega a revelação da sua baixa auto-estima. Ao mesmo tempo, este psicólogo por conveniência, elegante, bem vestido, dominador de discursos e manipulador de ideias, torna-se possuidor de trunfos que a intriga revela ser significativos no epílogo deste triângulo amoroso. Tekla (Sofia Marques), por sua vez, é poliamorosa: é incapaz de se filiar a um só amor, é leve, carinhosa e menos libidinosa do que os discursos que sobre ela se tecem. O seu carácter é moderno e quebra, ao mesmo tempo que confirma, todas as lógicas conjugais que são passíveis de gastar na gestão do amor. No entrelaçar desta trama amorosa processam-se ainda poéticas da criação artística e cartilhas de comportamento.

     A moldura cenográfica, da autoria de Ana Limpinho, é um interior de época, elegante, composto por pouca mobília que tanto sugere o atelier do pintor, como um espaço de lazer do casal. Este espaço, onde a marca do naturalismo é evidente, é marcado pela presença subtil da figura do flamingo, que passa quase despercebido no padrão rosa e verde do papel de parede e solo que repete o animal em pequena escala. A presença desta ave, que detesta a solidão, é curiosa: o flamingo vive em conjunto com dezenas de sujeitos da sua espécie numa comunidade bem organizada, que não permite poligamia. São conhecidos os seus rituais de acasalamento em conjunto, bizarros e divertidos, que têm como finalidade última determinar uma única fêmea para cada individuo que, impressionada com a sua performance dentro do conjunto, o acompanhará durante toda a sua vida. O desenho multiplicado do flamingo, como símbolo da relação monogâmica, presente no espaço que as personagens habitam, ironizaa relação entre Tekla e os seus dois maridos. O flamingo serve de comentário às pretensões de vida conjugal que se processam entre o trio de protagonistas, que foge dos parâmetros da monogamia, ao mesmo tempo que evidencia uma certa exibição dos machos desta peça nas suas qualidades para com a única mulher desta intriga. A ave é uma espécie de aura das contas conjugais que ali se prestam.

     O calcanhar de Aquiles deste espectáculo é, também, a sua maior virtude: a encenação de Paulo Pinto desenvolve-se sem arriscar e sem se afastar muito dos modos canónicos de representação naturalista que, jogando com a presença da quarta parede, coloca o espectador numa posição de voyeurismodos conflitos amorosos que lhe são tão alheios quanto este se identificar com os conflitos que ali se praticam.

     Mas mais do que o trabalho de interpretação de um texto, Credoresde Paulo Pinto defende-se pelo virtuosismo do elenco e de um trabalho de direcção de actores apurado. Apesar do registo naturalista, as interpretações de Paulo Pinto, Ivo Canelas e Sofia Marques adoptam por vezes um tom caricatural que comenta as palavras e as acções das personagens de Strindberg, brincando assim com o conferir de cálculos, de saldos e movimentos da tríade. A revelação deste subtexto por via da performance dá consistência ao ponto de vista  da leitura que encenador e actores fazem desta obra.

     Sem quaisquer pretensões moralistas, este espectáculo sobre a microesfera das relações actualiza o clássico ao mesmo tempo que o revela. Pelas interpretações tocantes e consistentes do elenco sábio, testemunha-se que o amor é uma ficção necessária, que cor-de-rosa é apenas da cor dos sonhos e dos flamingos, e que é necessário sermos onzeneiros e cobrar sempre juros, antes que nos fique em falta o afecto e em descrédito a paixão.

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