Mito de Andrógino [Nada de Mim]

NADA DE MIM. Texto: Arne Lygre. Tradução: Pedro Porto Fernandes. Encenação e espaço cénico: Pedro Jordão. Interpretação: Carla Bolito, Pedro Caeiro, Elisabete Pinto e Tiago Matias. Figurinos: Rita Lopes Alves. Luz: Pedro Domingos. Produção: Artistas Unidos. Co-produção: Teatro do Noroeste/CDV.

                                                                                   Teatro da Politécnica, 19 de Julho de 2018

         “Sempre que um amante encontra a metade que lhe pertence, eis que de súbito os     assalta uma estranha impressão de amizade, de parentesco, de amor, enfim; e a tal ponto que já não aceitam, por assim dizer, separarem-se um instante que seja. Esses são justamente os que permanecem juntos durante toda a sua vida – muito embora não    soubessem sequer dizer-vos o que esperam, em concreto, um do outro”

                                                                                                                    (Platão, O Banquete, 192c)

 

     No amor “tudo” é pouco, e “para sempre” nunca é demais. Amar alguém é quase sempre ser narcísico e buscar no par amoroso todas as expectativas de plenitude e, por isto, é também a forma mais imediata de criar vulnerabilidades.

     Nada de mim,o texto de Arne Lygre, alberga sob o seu título o contrário daquilo que expressa: é um texto no qual as personagens dão tudo o que são nas suas relações maternais, filiais ou conjugais, mesmo que esta dedicação implique, por vezes, a anulação da identidade do indivíduo ou a aglutinação de duas meias metades num mesmo ser vivo (correspondendo isto a uma ideia de fim). No texto está presente a frustração, a incapacidade e o amor doloroso, a paixão, a raiva, a angústia e a tristeza dos fracassos também. É uma narrativa sobre feridas emocionais e cicatrizes da alma que impedem ou dificultam o progresso de quem busca o amor. A peça é um caleidoscópio de ligações onde as dinâmicas se simetrizam, duplicam e se reflectem entre si, criando uma constelação de relações que revelam as semelhanças e paralelismos presentes nos mapas das afinidades entre sujeitos.

   A encenação que Pedro Jordão pratica da tragédia de Arne Lygre revela uma dramaturgia da anulação e erosão dos caracteres. Através de um trabalho minucioso de interpretação da obra, o exercício cénico explora as pistas apontadas pelas palavras do autor norueguês, tornando ainda mais evidente o processo de metamorfose das personagens no sentido de supressão de si próprias.

     A composição cénica de Jordão é clara: todas as relações são compostas por heranças, memórias e experiências anteriores que ditam, invariavelmente, a morfologia de cada novo namoro. Os diálogos entre os protagonistas (interpretados neste espectáculo por Carla Bolito e Pedro Caeiro) são déjà vu  de conflitos experimentados pelos próprios com os progenitores, com os filhos ou com o ex-marido, (aqui dados por Elisabete Pinto e Tiago Matias). Cada nova experiência conjugal implica novas cedências, desistências e convicções firmadas apenas por “uma estranha impressão de amizade, de parentesco, de amor” que impede que se desista de uma ligação, até à morte. Assim, o encenador revela de que modo as vidas das personagens são mais regidas pelos laços que criam do que pelos seus traços de carácter, adoptando para isto uma opção de débito de texto cuja qualidade é quase monocórdica. A opção é arriscada, mas válida, e muito bem conseguida nos propósitos desta encenação, resultando num raro exemplo em que este tipo de estilização é adequado.

     A monotonia do registo e do tom praticado pela interpretação é a maior preciosidade deste Nada de Mim, onde o conjunto de actores se encontra muito afinado, seguindo uma partitura de elocução espantosa e qualidade performativa de destaque, num exercício que se rege sobretudo pelo domínio do texto e do ritmo decidido pela encenação. As réplicas são entregues com delicadeza e clareza, num tom não naturalista que é activado pela estranheza do texto, cuja compleição está repleta de descrições preciosas, divulgações de pensamentos íntimos e de acções emotivas dos pares. Apesar das personagens praticarem o mesmo tipo de registo, entoação, elocução e volume de débito, destacam-se neste exercício as variações subtis e elegantes do ex-marido apaixonado por Tiago Matias e a contenção de uma paixão amadurecida por Carla Bolito.

   Os figurinos de Rita Lopes criam o aspecto cromático gracioso das figuras que orbitam a cena: o elenco encontra-se vestido de um mesmo tom, um pastel pálido elegante que define silhuetas, géneros e idades dos intervenientes da narrativa, ao mesmo tempo que os reúne e confunde numa mesma mancha de cor impressionista.

     O cenário, também da autoria de Pedro Jordão, não situa o conjunto das personagens e das suas intrigas em nenhum espaço concreto, antes as remete para um conjunto de espelhos e cadeiras que servem a ideia de infinito e de reflexo. Este é, aliás, o calcanhar de Aquiles de Nada de Mim: a presença de reflexos manifestos nas palavras de Lygre concretiza-se de modo material no aspecto da cena, levando talvez demasiado à letra o que se experimenta no texto. Apesar do jogo de espelhos não acrescentar nada à revelação da obra escrita, a sua presença não incomoda, e veste a cena como cenário de modo justo.

     Finalmente, o silêncio (que suporta o espaço sonoro em que são lançadas as relações, que são sobretudo palavras) dissipa-se lentamente à medida que um epílogo melódico, acompanhado por uma moldura de Pedro Domingos, serve de epitáfio desta relação: morreram infelizes para sempre, numa encenação muito feliz.

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