Epitáfio de uma relação: Mais Borralheira que Princesa [Cinderela]

Cinderela. Direcção e texto:Lígia Soares. Co-criação e interpretação:Cláudio da Silva e Crista Alfaiate. Direcção Musical e Apoio à Dramaturgia:Mariana Ricardo. Concepção plástica:Henrique Ralheta. Luz:Rui Monteiro. Assistência de Ensaios:Mia Tomé. Produção:Máquina Agradável.  Apoios: O Espaço do Tempo e Polo Cultural das Gaivotas (CML). Co-produção:Teatro Aveirense, Teatro Municipal do Porto. Rivoli-Campo Alegre, Teatro Viriato e São Luiz Teatro Municipal.

                                     Sala Mário Viegas,Teatro Municipal São Luiz, 20 de Junho de 2018

 

    Lígia Soares é actriz,  bailarina, coreógrafa e directora artística de Máquina Agradável (Lisboa). Tem contado com a publicação dos textos dos seus espectáculos (Romance, 2015, ed.Douda Correria) e intérprete do espectáculo recentemente premiado com o prémio da SPA para Melhor Texto representado (Se eu Vivesse tu Morrias, de Miguel Castro Caldas, 2016). Estreia agora, no Teatro Municipal São Luiz, a sua mais recente encenação, Cinderela, onde se demonstram momentos de uma história que parte de uma ideia diferente de amar, sem encantamentos. O texto, já publicado (ed. Douda Correria), é da autoria da encenadora e explora as dinâmicas de uma relação amorosa, onde o amor romântico pouco habita e onde o conto de fadas reside apenas no título.

    No centro da cena encontra-se uma estrutura circular, com assentos ao meio, um achado cenográfico de Henrique Ralheta que permite que os dois actores deste espectáculo, Crista Alfaiate e Cláudio da Silva, ocupem no meio da estrutura os seus lugares sentados, mas não confortáveis. Estão de frente um para o outro, numa posição que suspende a intenção de um toque de lábios que lembra o momento do beijo que nunca acontece, eternizado por Gustav Klimt em O Beijo. Assim se mantêm, Príncipe e Cinderela, imóveis durante toda a duração do espectáculo, apenas com breves e pequenas variações desta hipótese de carícia.

    Contudo, o esforço, desconforto e cansaço que advêm da prática da tensão e da imobilidade, jamais se sentem no débito do texto. Se a cena é ocupada pela quietude dos seus corpos, o imaginário que o diálogo deste casal produz causa uma interferência interessante que contrasta com a letargia do palco: o ritmo e a musicalidade que experimentam animam as pequenas narrativas do par, que se percebe que se conhece há muito tempo, talvez há tempo demais. A quietude física dos actores traduz a impossibilidade de evolução dessa relação. Estão presos nela, tal como os seus corpos estão presos, nesta encenação, no caminho do beijo que jamais se dá. Assim, a parálise da cena prolonga de forma eficaz a ideia do texto, que explora a dificuldade de mutação da realidade que o casal partilha, da qual reconhecem defeitos e qualidades que, mesmo querendo, não conseguem alterar.

    Cinderela de Lígia pode ser entendida como o epílogo de uma longa experiência de coabitação, onde já não existe entusiasmo de dar qualquer novidade ao parceiro que se ama, há tempo demais. “Eu sei meu amor”, é o refrão deste espectáculo, respondido tanto por ele como por ela a cada finalização de cada ideia. O pretérito é o tempo utilizado, quase sempre. Já não há planos para o futuro.

    O texto, que é triste pelo permanente tom de despedida, de perda, de solidão e desconsolo, experimenta na encenação a ironia e o sarcasmo: é a interpretação dos actores que demonstra o cinismo das relações amorosas e deixa a nu as tensões de uma vida a dois. A performance de Crista e Cláudio revela a qualidade cénica do texto que é, por si, uma composição inteligente e fértil nas dinâmicas que propõe.

     A poeticidade do texto, que recorre com frequência a lugares comuns,  conferindo-lhes formas líricas, não adocica a relação desequilibrada entre um Príncipe e uma Borralheira e é, mais uma vez, a interpretação dos actores que sublinha este aspecto da peça escrita: o Príncipe ganha mais que ela, ela, a Princesa Cinderela, trabalha mais do que ele. Ele é menos comprometido com o quotidiano doméstico e com a relação, ela aparenta ser o indivíduo mais fraco do namoro por via de uma aparente subjugação que, na realidade, é a demonstração de maior inteligência. Cinderela tem dívidas para com o Príncipe e ele, por sua vez, tira férias e possui cavalos. Ela é “como uma barata (…) resistente e pequena”, ele é “como uma baleia (…) um enorme suicida”. As nódoas “são os galões dela”, e “os galões dele, as suas nódoas”. Existe sempre, nas palavras de Lígia Soares, a declaração dos mundos diferentes de Cinderela e do Príncipe.

    O espectáculo termina com Cinderela dizendo “estou feliz”, mas esta felicidade não é redentora, antes espelha a expressiva impossibilidade de alternativa que está sempre presente. O Príncipe já antecipara tal conformidade ao afirmar “Não queres olhar para as evidências passadas porque não queres abortar o indeterminável futuro”.

      Sendo a história clássica de Cinderela uma narrativa sobre uma menina feita criada, que se omite por detrás de trajes nobres na pretensão de ascensão a uma vida de sonho, fica por explorar nesta Cinderela de Lígia Soares a importância do figurino. Uma vez que a cena é estática, acontecendo sobretudo no domínio da palavra, e uma vez que a imagem do par emoldurado em cena é forte, é de lamentar que a dramaturgia do espectáculo, que rouba o título ao conto de fadas, não se tenha debruçado sobre o aspecto dos dois protagonistas. Ao invés, a proposta do que vestem é sobretudo desinteressante.

     Outro dos calcanhares de Aquiles deste espectáculo reside no trabalho de luz de Rui Monteiro, que tanto acerta quanto distrai nos apontamentos coloridos que confere à cena. As luzes móveis, que saem do topo da plateia para “varrer” o público e se fixarem nos dois actores, são sobretudo perturbantes. A sonoplastia de Mariana Ricardo também não é reveladora nem suficientemente eficaz neste objecto cénico. Salvo raros momentos, em que se pratica uma sonoridade que se aproxima de uma espécie de banda sonora, o silêncio que habita o ritmo do diálogo é, quase sempre, mais rico que qualquer efeito de som.

       Apesar de constituir um espelho muito divertido, o espectáculo Cinderela é sobretudo desesperançado e sarcástico. Cinderelaé um epílogo das relações amorosas que destrói o clichê do Príncipe Encantado, transformando o nome de Cinderela num epitáfio de todos os casais que, na expectativa de viver um conto de fadas, se dão conta que são maiores as dificuldades, as diferenças e disparidades económicas e relacionais do que os truques de condão numa vida a dois.

 

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