Pato Season [Noite e Dia]

Noite e Dia. Concepção e Interpretação: Rita Morais e Joana Cotrim. Apoio Dramatúrgico: Peter Vandenbempt. Desenho de Luz e Operação do Espectáculo: Carolina Caramelo. Comunicação: Ana Duarte. Produção: Rita Morais. Apoio à Circulação de Espectáculos: Fundação GDA. Residências, Apresentações, Apoios: wpPianofabriek, Projeto T3/ESMAE, Montignacht/Monty, Atelier Real, Teatro de Ferro/FIMP, wpZimmer, Companhia Olga Roriz, Asas de Palco, TEUC, 23Milhas.

                                                                       Rua das Gaivotas 6, Santos, 24 de Março de 2018

 

     Durante três dias, no Espaço das Gaivotas, Rita Morais e Joana Cabral Cotrim apresentaram Noite e Dia. As duas intérpretes chegam à cena do exterior da sala de espectáculo, encharcadas. As roupas molhadas pouco parecem figurinos, dir-se-ia que vieram da ruela, onde chovia, directamente para a cena. Esta entrada aponta desde logo a gramática praticada: para as duas performers, o Teatro é artifício e fingimento, e o faz de conta é o motor que rege o espectáculo que montaram.

     Assim, “as maminhas” (que não se veem) “são belas!”, assim como são bonitas as pernas desnudadas, que estão na realidade bem escondidas. “A orquestra”, que não existe, “é bela!”, continuam elas, “o palco” (apenas minimamente ocupado por dois microfones e uma cortina brilhante, e algumas mobílias arrumadas a um canto que servirão a ficção), “também é belo!”. O refrão do espectáculo é este: tudo é belo, a vida é bela, e os espectadores também são belos. E não fosse o público esquecer tal lengalenga, que é algumas vezes repetida, ainda nos fazem um pedido, para que tudo seja de facto bonito: “Gostávamos de pedir vos que deixassem os vossos problemas lá fora: esqueçam a guerra, a fome, esqueçam o medo, esqueçam as contas para pagar: Aqui a vida é bela”.

     Se não se considerar que, ali, a vida é bela, não se pode discordar que é, pelo menos, cheia de graça: a performance Noite e Dia, inspirada no universo de cabaret, exibe uma série de números insólitos e divertidos, um conjunto de quadros de exercícios performativos que se constituem como uma montra das qualidades humorísticas e de entretenimento das duas actrizes. As plumas, lantejoulas e brilhantinas são trocadas por elementos mínimos capazes de sugerir o glamour de um palco de cabaret: umas penas solitárias, umas toucas pouco arrumadas sobre a cabeça e o pezinho sempre levantado das intérpretes, acompanhado de um sensual movimento de anca sob o vestuário ensopado, deixam o público imaginar o teatro que fazem. Deste modo descobrimos-lhes, com a imaginação, os maillots, os collants rendados, as franjinhas e o salto alto destas anfitriãs. num cabaret imaginário que nos dá a ver as dançarinas de cancan de maminhas à mostra e pernas desvendadas.

     O discurso é entregue directamente ao público, é connosco e para nós que dialogam Joana Cotrim e Rita Morais, contando mesmo com a participação da audiência para alguns números de ficção. Recebemos o espectáculo como remetente directo, o filtro teatral do público é o mesmo dos actores – aquele concebido pelas sombras da ficção. O par de encharcadas desgrenhadas experimenta um conteúdo descomplexado, simples e por vezes poético, onde a dinâmica e empatia entre as duas performers é evidente, assim como a simpatia, graça natural e à vontade com que as actrizes se relacionam com o seu público.

     Nesta exibição não estão esquecidos os clichés, os números musicais, as palestras sobre a cor da espuma que os sabões fazem, os loops narrativos, as confissões, as solicitações a revelações… A experimentação deste conteúdo, a nível formal, resulta na pretensão (eficaz) da suspensão do real. A nível técnico, resulta num exercício intensivo de demonstração das habilidades de Rita Morais e Joana Cotrim, cujos virtuosismos em sotaques, dança clássica, performance, improviso, canto, instrumentos musicais e representação, testam os seus propósitos de ficção, umas vezes de forma mais irónica do que outras.

     Contudo, se este nível de experimentação de variedades é a maior qualidade deste espectáculo, revela-se também o seu calcanhar de Aquiles: em Noite e Dia o protagonismo de Joana Cotrim é evidente, sendo a prestação de Rita Morais menos exibicionista, menos demonstradora das suas qualidades como intérprete. A persona praticada por Joana Cotrim faz dela o Dia deste espectáculo, remetendo Rita Morais para a escuridão da Noite – opção estética defendida e verbalizada no decorrer da apresentação, que termina em tragédia com a morte (ou a extenuação?) de Cotrim. A subtileza da personagem menos expansiva de Rita Morais revela que esta é a resistente, a que tinha proposto radicalmente fazer-se um espectáculo totalmente às escuras, num afogar das luzes da ribalta que terminaram com o Dia deste espectáculo.

     Conhecemos já ambas as intérpretes de outros projectos, habitualmente pautados pela ironia, o sarcasmo e o comentário corrosivo, de carácter mais performativo que teatral: Joana Cotrim é fundadora da dupla Os Pato Bravo, Rita Morais da companhia Silly Season. Os grupos, relativamente recentes, de gerações próximas, surgidos sensivelmente no mesmo panorama artístico nacional, têm uma linguagem que dialoga entre si. Contudo, o que Noite e Dia apresenta não é uma extensão do estilo destas companhias. Apesar de, nos estilos de representação e forma deste espectáculo, se espelharem algumas características de ambos os grupos, o que Cotrim e Morais concretizam em Noite e Dia é uma simbiose original, um terceiro género que fica entre os Pato e os Silly, um paladar a Pato Season ou Silly Bravo – isto se se quiser insistir na relação do percurso artístico destas actrizes com o que apresentam no exercício cénico descrito.

     De relevar o carácter experimental do que se faz, do que se propõe em cena, que nem sempre é levado até às suas últimas consequências, porque afinal também não é esse o propósito do espectáculo. Noite e Dia não tem propósito algum senão alienar-nos dos problemas. É um show de variedades, uma amostra de habilidades, de fait divers (uns mais bem preparados que outros), sem que isto traga prejuízo àquilo a que se assiste. Aliás, o erro a improvisação e o inesperado fazem parte deste exercício cénico, pois é um espectáculo de entretenimento simples, descomprometido e divertido, despretensioso e descomplexado, onde a vida pode ser bela por uns instantes – isto sem contar com a make up da dupla, que brilha na luz negra.

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